Porque a pecuária brasileira precisa de seu Yellowstone

Da Redação

A pecuária brasileira tem números impressionantes. Está presente em praticamente todo o território nacional, movimenta uma enorme cadeia econômica, contribui para a segurança alimentar e faz parte da história de milhões de famílias. Mas, apesar de sua dimensão econômica, social e territorial, ainda tem dificuldade para contar sua própria história.

É nesse sentido que a pecuária brasileira precisa de seu Yellowstone.

A série norte-americana transformou conflitos ligados à terra, sucessão familiar, tradição, poder, identidade e transformação do mundo rural em uma história capaz de interessar a milhões de pessoas que jamais pisaram em uma fazenda. Não fez isso por meio de campanhas institucionais ou discursos sobre o setor. Fez por meio de personagens, famílias, afetos, contradições e conflitos.

No Brasil, existe matéria-prima de sobra para algo semelhante. Temos Pantanal, Cerrado, Amazônia, Caatinga e Mata Atlântica. Temos pequenas, médias e grandes propriedades. Temos famílias que estão na atividade há gerações e jovens que precisam decidir se permanecerão no campo. Temos mulheres assumindo fazendas, produtores incorporando tecnologia e propriedades atravessando profundas transformações ambientais e produtivas.

E temos uma história particularmente importante a ser contada: a de uma pecuária que pode ser parte da solução para alguns dos grandes desafios deste século.

Em algumas regiões brasileiras, produtores vêm recuperando pastagens degradadas, preservando nascentes e matas, protegendo biodiversidade, aumentando a produtividade sem necessariamente ampliar a área ocupada e buscando formas de reduzir as emissões da atividade. Há um enorme caminho ainda a percorrer, mas existe também uma oportunidade concreta de mostrar que produção e conservação não precisam ocupar lados opostos da mesma história.

Ao mesmo tempo, existe outra dimensão frequentemente esquecida quando se fala sobre o campo: produzir alimentos é uma responsabilidade social. Em um mundo que deverá alimentar bilhões de pessoas nas próximas décadas, discutir o futuro da pecuária significa também discutir segurança alimentar, acesso à proteína, eficiência produtiva e a capacidade de produzir alimento preservando os recursos naturais dos quais essa própria produção depende.

Essas duas agendas — conservação ambiental e segurança alimentar — podem encontrar na pecuária brasileira um território extraordinário de inovação e transformação. E talvez algumas das histórias mais interessantes estejam justamente nas contradições desse processo: entre produzir e preservar, tradição e inovação, desenvolvimento econômico e responsabilidade ambiental, o conhecimento de quem está há décadas na atividade e a visão de uma nova geração que começa a assumir as propriedades.

São histórias brasileiras ainda pouco conhecidas pelo Brasil urbano.

Durante muito tempo, boa parte da comunicação da pecuária esteve concentrada em defender o setor ou apresentar seus números. Isso é importante, mas insuficiente. As pessoas raramente se conectam emocionalmente com setores econômicos. Elas se conectam com pessoas e histórias.

Ter o nosso “Yellowstone”, portanto, não significa produzir uma obra de propaganda sobre a pecuária. Pelo contrário. Uma narrativa relevante precisa mostrar sua complexidade: os acertos e os erros, as transformações, os conflitos entre gerações, as diferenças regionais, as tensões ambientais e, principalmente, as pessoas que vivem essas questões todos os dias.

Talvez esteja aí uma das grandes oportunidades para a pecuária brasileira nos próximos anos: deixar de ser apenas objeto da narrativa dos outros e tornar-se também protagonista de sua própria história.

Porque ocupar espaço no debate público não significa apenas estar sentado à mesa onde as decisões são tomadas. Significa também estar presente no imaginário de uma sociedade cada vez mais urbana e distante da realidade do campo.

A pecuária brasileira precisa contar menos sobre si mesma — e começar a contar mais histórias sobre quem ela é, sobre o alimento que produz, os territórios que ajuda a conservar e o futuro que está disposta a construir.

Quando os territórios falam

Da Redação

Nos dias 10 e 11 de setembro, em Brasília, embaixadores do Vozes da Pecuária estarão reunidos para apresentar os resultados de um amplo trabalho de escuta realizado em dez territórios, distribuídos por oito estados brasileiros — Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Pará, Rondônia, São Paulo, Bahia e Tocantins.

De caráter mais reservado, o encontro marca a conclusão de uma etapa importante do projeto. Ao longo dos últimos meses, os próprios pecuaristas foram a campo para ouvir produtores, famílias, lideranças e outros atores ligados à atividade, buscando compreender desafios, oportunidades e diferentes perspectivas sobre o presente e o futuro da pecuária brasileira.

As escutas foram sistematizadas em Dossiês Territoriais, que reúnem as principais questões, percepções e propostas levantadas em cada região. Após o encontro de Brasília, esses documentos serão amplamente divulgados para a sociedade, além de serem endereçados a gestores públicos, lideranças políticas e formadores de opinião, contribuindo para aproximar a realidade dos territórios dos espaços onde são tomadas decisões que afetam o setor.

Trata-se de um esforço inédito, conduzido quase exclusivamente por pecuaristas e construído a partir da diversidade das pecuárias brasileiras. Mais do que produzir diagnósticos, o processo busca fortalecer a capacidade do setor de formular propostas, construir pontes e participar diretamente dos debates sobre seu futuro.

O Vozes da Pecuária nasceu do movimento Pecuária Tropical pelo Clima e inicia agora uma nova etapa. A expectativa é que o projeto dê origem ao Instituto Vozes da Pecuária, ampliando a articulação entre produtores, territórios e diferentes segmentos do setor.

A ambição é clara: unir ainda mais a pecuária brasileira e fazer com que o pecuarista ocupe cadeiras que, durante muito tempo, permaneceram vazias nos espaços de diálogo e decisão sobre o futuro da própria atividade.

Corote e a chapa perdida

Leonardo de Barros

O pantaneiro já ia há dias na labuta, o objetivo principal era ganhar um dinheiro e arrumar o teclado. Os dentes, já poucos, atrapalhavam comer e flechar as damas.

A fincada da agulha no consultório doeu, o velho pantaneiro sofreu toda sorte de tortura. No final foi coroado com a chapa reluzente. Um novo sorriso mostrava os teclados cor de marfim. A carne gorda da vaca velha pantaneira era estraçalhada com facilidade.

Corote trabalhava dobrado, tinha que pagar o novo teclado. Floriza tinha sido fisgada com novo visual. As despesas se avolumavam.

Acordando de madrugada, trabalhando até quando podia enxergar, a empreita tinha que pagar a chapa e os agrados para Floriza.

A moto serra quebrou quase escurecendo, acordou o sobrinho Ancelmo na fazenda vizinha, seguiram para Rio Verde, sem dormir. Corote tinha que voltar com a moto serra funcionando, seguir a empreita.

O dia quase clareando, o velho pantaneiro parou de contar seus causos, Ancelmo dormiu, o Toyota bandeirantes desgualepou barraco abaixo. O pior aconteceu, Corote largou o beiço no console do carro e rachou a chapa reluzente, quebrou ao meio. Tragédia!!

A resiliência pantaneira não tem limites, o pantaneiro saiu pela janela do velho Toyota, deu uma risada, agora com os teclados falhos falou: “afivela que daqui a pouco melhora..”

Minha gente pantaneira!